Fiquei irritado com o corretor automático do meu celular porque
fui perguntar a alguém se havia feito sua refeição e digitei: "Já almuçou?”,
e o incompetente corrigiu para: "Já almoçou?". Fiquei olhando aquela
palavra como se fosse uma intrusa no meu escrito. Que palavra era aquela que se
intrometia onde não devia. Parei. Olhei. Li mais uma vez e cheguei a conclusão
que era a palavra certa, por mais estranha que me parecesse naquele momento.
Acho que nunca escrevi essa palavra. Talvez tenha sido a primeira vez, tão
estranha ela me pareceu.
Tudo isso por culpa do vicio na forma de falar. Percebi que sempre falo com o
som de "u", isto é, "almuçou". Não pense que não sabia que o
certo era "almoçou", mas naquele momento eu achei meio esquisito. Por
alguns segundos fiquei confuso sobre o certo e o errado. Assim acontece com
muitas coisas na vida, e nem percebemos. Paulo fala sobre isso quando diz:
"Porque tenho o desejo de fazer o que é bom, mas não consigo realizá-lo.
Pois o que faço não é o bem que desejo, mas o mal que não quero fazer, esse eu continuo
fazendo" (Rm 7:18,19).
Existe dentro de cada um de nós uma luta terrível das leis que nos regem. Por
um lado a lei divina que mostra uma serie de princípios que não devo
desobedecer. Por outro lado a lei da carne que me cobra a todo instante que
realize desenfreadamente, ou mesmo cautelosamente, os seus desejos. Essa luta
por vezes nos faz ceder ora para uma banda, ora para outra. Parece aquele
desenho animado que coloca de um lado um diabinho e do outro um anjinho,
soprando orientações e tentações, as quais nos fazem ficar, por vezes, sem
saber o que realmente fazer.
Algumas coisas nos parecem absurdas e temos certa facilidade em decidir, como
por exemplo, entre matar ou ajudar uma pessoa, eu sei exatamente o que
escolher. Outras coisas como, por exemplo, se devo ou não olhar para o
belíssimo traseiro daquela mulher que vai toda rebolante a minha frente,
principalmente se ela estiver com um minúsculo biquíni numa praia, pode sofrer
um atenuante, e eu achar que não é tão errado assim. Afinal, ela esta ali na
minha frente, eu não posso olhar para os lados, ou para trás, pois corro o
risco de tropeçar em alguém e cair, e me machucar.
Uma coisa é aceitar um caso de adultério dentro da igreja, ou uma relação
sexual fora do casamento, principalmente se houver gravidez (se não houver
ninguém precisa ficar sabendo). Outra coisa é aquela irmãzinha, ou irmãozinho,
que fala de todo mundo indiscriminadamente, mas ninguém toma uma atitude. Isto
não é errado? Ou mesmo alguém que fala mentiras, e nada acontece.
Esta luta, que acontece conosco, nos faz tomar partido em algumas situações e
desenvolvemos uma serie de esquivos para nos livrar da culpa. Algumas coisas já
não nos parecem mais ser nocivas. Classificamos alguns desvios de
"maior" ou "menor" periculosidade para o caráter, ou para a
espiritualidade, e assim nos “livramos” da culpa em algumas coisas.
Para termos uma ideia disso, segundo o site ACIDIGITAL, em "Perguntas e
respostas sobre o Sacramento da Penitencia", há dois tipos de pecados: os
mortais e os veniais. Entre os mortais mais frequentes, que devem ser
confessados, estão: "perder a Missa dominical ou as festas de preceitos
sem um motivo sério; matar ou ferir GRAVEMENTE a uma pessoa inocente; para os
cônjuges, IMPEDIR a concepção no ato conjugal; roubar alguma soma RELEVANTE,
inclusive desviando ou subtraindo no trabalho", e ao mesmo tempo diz que
"A confissão dos pecados veniais NÃO É NECESSÁRIA, mas é muito útil para o
progresso da vida cristã". (os grifos nas palavras acima são meus)
Segundo a Wikipédia "A penitencia pode ser definida durante a confissão
que é o sacramento pelo qual o fiel se reconcilia com Deus, obtendo o perdão
pelos seus pecados". De acordo com o tamanho do pecado o tamanho da
penitencia. E assim, entre pecadinhos e pecadões, vamos vivendo sem ter noção,
às vezes, se estamos fazendo o bem que queremos ou mal que odiamos. Na realidade
algumas coisas já perderam o significado de mal para nós.
E vamos levando nossas vidas sem nos dar conta de que algumas coisas não devem
ser feitas. Para o uso do celular na direção, inventamos a desculpa que "é
trabalho e não posso perder tempo". Avançamos o sinal vermelho e
argumentamos que "o lugar era perigoso". Gastamos um bom tempo nos
"zapzaps" da vida durante nosso horário de trabalho, enquanto o chefe
não esta vendo, e achamos que somos espertos. E assim nos tornamos viciados em
algumas coisas porque elas nos parecem menos prejudiciais, e não percebemos o
erro que cometemos.
Sei que tenho meus vícios também. Não sou santo como gostaria de ser. Sou gente
igual a você e me desespero por achar que é muito difícil. E na realidade só
não conseguimos por isso, por achar que somos nós que faremos. Paulo quando
percebe a loucura que é isso tudo exclama: "Miserável homem que eu sou!
Quem me libertará do corpo sujeito a esta morte?" (Rm 7:24). Quem poderá
me livrar destes maus hábitos que vou adquirindo aos poucos e vão cauterizando
minha compreensão do certo e errado, que me leva a não saber mais se o que faço
ou deixo de fazer é o que agrada a Deus? É como se fosse um vicio em uma droga
qualquer que domina minha vontade e me faz um escravo dela. Faz-me um
dependente.
Em seguida Paulo solta a voz num grito que sai das profundidades do seu ser e
exclama agradecido: "Graças a Deus por Jesus Cristo, nosso Senhor!" (
Rm 7:25). Ufaa!Que alivio! É um peso enorme que sai das minhas costas. Escuto
em alto e bom som Jesus dizendo: "Vinde a mim, todos que estais cansados e
sobrecarregados, e eu vos aliviarei. Tomai sobre vós o meu jugo e aprendei de
mim, porque sou manso e humilde de coração; e achareis descanso para vossa
alma. Porque o meu jugo é suave, e meu fardo é leve" (Mt 11:28-30).
Pronto! Não sou eu, mas Cristo é quem pode me livrar de tudo isso. O peso não
sairá por meus méritos, mas pela graça de Deus, que mandou Jesus para pagar por
meus erros. A penitencia maior e completa já foi feita, pois ele morreu por
todos os meus pecados. E eu só preciso pedir perdão por cada um deles diante de
Deus, pois o texto sagrado me diz: "Se confessarmos os nossos pecados, Ele
é fiel e justo para nos perdoar TODOS os pecados e nos purificar de toda
injustiça" (1 Jo 1:9). (grifo meu novamente)
Só me resta agradecer a Deus e procurar viver o mais perto possível da sua
vontade.