Que bom que você veio!!


Que bom que você veio!!
Quero escrever textos que nos ajudem a entender um pouco mais daquilo que Deus tem para nós, para falarmos uma mesma linguagem. Não tenho o objetivo de ser profundo, nem teológico, nem filosófico, nada disso. Quero dizer coisas simples que pululam em minha mente, sempre atento para não contradizer em nada a minha fé, ou o que creio ser a vontade de Deus.
No mês de Agosto/12 há um texto que explica o significado e o porquê do nome Xibolete.

31 de out de 2012

Animais inconvenientes.



Uma cadela (foto) criou uma situação que com certeza importunou muita gente. Não é que a danadinha fez a Ponte Rio-Niterói ser fechada para que ela fosse salva? Uma equipe da concessionária que administra a ponte foi até o local para resgatá-lo. Afinal, essa atrevidinha foi passear num local onde nem nós, os seres humanos, podemos passear a pé e corria o rico de ser atropelada por causa do grande fluxo de automóveis naquele horário, ou mesmo causar um acidente. Foi bonito o que fizeram, resgatar aquele inoportuno animalzinho que já recebeu o apelido de "Carminha".

Um dia desses estava comendo um lanche num shopping que não é todo fechado, e tinha um pardal por ali querendo comer alguma coisa. Até ai tudo bem. O problema é que ele queria comer o meu lanche. Ele estava em cima da mesa que eu usava e, pasmem, queria pegar o meu lanche. Eu o enxotava e ele nem se incomodava. Dava um pulinho e voando mudava de lado na mesa. Percebi depois que ele já é um freguês habitual dali, pois na outra mesa alguém lhe oferecia um pedacinho do seu lanche e ele ia bicar seu petisco na mão da pessoa.

Estava na praça de alimentação de outro shopping e vi alguns seguranças tentando, disfarçadamente, afastar dois meninos de rua que pediam comida por ali. Cercavam de um lado, cercavam de outro, e aos poucos foram tirando os meninos famintos sem que quase ninguém percebesse sua atitude. Cumpriram bem seu papel livrando aquelas pessoas felizes que comiam seus lanches daqueles animaizinhos inconvenientes.

Por que com os pardais isso não acontece? Seriam eles melhores que os meninos, ou não incomodam tanto quanto eles? Para mim os pardais são mais inoportunos. Estranho isso.

Os jornais recentemente têm mostrado imagens de pessoas espancando pequenos animais. Indefesos, alguns sofrem horrores nas mãos de seus “donos”, ou pessoas que se sentem incomodados por eles em alguma situação, ou por simplesmente não gostarem de animais. Da mesma forma os noticiários têm nos mostrado casos e mais casos de crianças que sofrem violências em suas casas. Pais, se é que podem ser chamados assim, queimam suas mãos no fogão ou em ferros de passar roupas. Batem com fios que fazem marcas indeléveis, tanto no corpo quanto na alma. Crianças que são abusadas sexualmente, que levarão essas marcas para sempre em suas vidas. Com certeza um trauma incurável, que poderá gerar uma pessoa totalmente desequilibrada, se não for bem assistida; acompanhada com muito amor e carinho.

Quem são realmente os animais inconvenientes? Seriam os pequenos animais irracionais que perambulam pela cidade fechado pontes, querendo comer nosso lanche, latindo em horários de silêncio, cantando a madrugada toda a plenos pulmões como um galo ao lado prédio onde moro? (O que faz esse galo aqui em Jacarepaguá?)

Seriam as crianças que sofrem de violência física, moral e sexual sem que possam reagir aos brutamontes que as praticam? Violência esta, na maioria das vezes, praticada dentro de casa por seus próprios pais ou outros parentes?

Em seu bom livro “As Boas Mulheres da China”¹, a jornalista Xinran descreve o que encontrou no diário de uma adolescente abusada sexualmente pelo próprio pai, a partir dos seus onze anos de idade até os dezessete: “Eu costumava sonhar que encontraria um jeito de lavar a minha dor, mas será que posso lavar a minha vida? Posso lavar o meu passado e o meu futuro? Frequentemente examino meu rosto com atenção no espelho. Parece liso de juventude, mas eu sei que tem as cicatrizes da experiência: é despido de vaidade e muitas vezes mostra dois vincos fundos na testa, sinais do terror que sinto dia e noite. Meus olhos não têm nada do brilho da beleza dos olhos de uma garota. No fundo deles há um coração que se debate. Dos meus lábios machucados foi raspada toda a esperança de sensação; minhas orelhas, fracas por causa da constante vigilância, nem aguentam um par de óculos; meu cabelo, que deveria brilhar de saúde, não tem vida, por causa da preocupação. É esse o rosto de uma garota de dezessete anos? O que são as mulheres, exatamente? Os homens devem ser classificados na mesma espécie que as mulheres? Por que é que eles são tão diferentes? Livros e filmes podem dizer que é melhor ser mulher, mas não consigo acreditar. Nunca achei que isso fosse verdade e jamais vou achar.”

Quem são os animais inconvenientes? Os irracionais que fazem coisas por seus instintos e, às vezes, por uma adaptação a um mundo que não seja o deles, nos incomodam por que nós mesmos acabamos com o seu habitat natural, ou influenciamos as mudanças de hábitos deles dando-lhes comidas que não as suas?

Quem são os animais inconvenientes? Os racionais que precisam crescer num ambiente de amor, carinho, respeito, orientação, educação e tantas outras coisas que as crianças precisam e não encontram em seus lares? Que por falta uma família organizada, ou bem estruturada, precisam dormir nas ruas e rondar as portas de restaurantes ou praças de alimentação nos shoppings numa tentativa de comer alguma coisa, que às vezes, os animais racionais adultos jogam no lixo, sem se importar?

Quem são os animais inoportunos, inconvenientes?

Quero juntar três textos bíblicos que pode nos dar uma visão daquilo estamos fazendo: “Aquele, pois, que sabe fazer o bem e não o faz, comete pecado. Em verdade, em verdade vos digo que todo aquele que comete pecado é escravo do pecado. Quem comete pecado é do Diabo; porque o Diabo peca desde o princípio” (Tg 4:17; Jo 8:34; I JO 3:8).

Nós somos os inconvenientes. Animais racionais inconvenientes, inoportunos, impróprios e todo outro adjetivo que você puder pensar que mostre o quanto estamos longe daquilo que Deus planejou. Longe da imagem e semelhança de Deus. Temos melhorado em alguns aspectos, mas caminhamos em lentos passos em outros tantos. Mas é muito bom ver que aqui ou ali surgem manifestações que nos levam a crer que nem tudo está perdido. Deus tem incomodado alguns no sentido de fazer diferente. E não quero nem citar pessoas que a mídia já tem de alguma maneira mostrado, mas pessoas simples como eu e você.

Este depoimento apareceu no facebook, e foi postado por um amigo de Maringá (PR), Artur, ou simplesmente Tuca:

“Hoje depois de muito tempo pensei em me dar um Luxo de ir comer no shopping aqui de Maringá... com a grana bem curta mais resolvi ir...

Ao chegar fui estacionar o carro na avenida na frente do shopping, quando me deparei com um menino sentado na calçada com a cabeça entre os joelhos, como muitas vezes já me peguei no mesmo estado triste e na mesma posição.

Naquele momento fiquei parado dentro do carro, com os olhos cheios de lagrimas, orei e pedi a Deus pra me orientar, pois não sabia como poderia ajudar aquele menino...

Sai do carro fui até ele, sentei ao lado dele e falei: Mano hoje sai de casa pra me dar o luxo de comer um lanche mais sei que Ele queria era dar um luxo pra você...

Perguntei o que ele queria comer... nesse momento ele me olhou e falou: Eu só queria comer algo diferente, todo mundo no fim de semana come alguma coisa diferente...

Pedi pra que ele entrasse e fosse comigo comer... ele não quis, porque ele não estava com a família e todos lá dentro estavam com suas famílias, e ele não queria que essas pessoas ficassem olhando pra ele... (entendi, pois muitas vezes nossos olhares poder ferir).

Entrei comprei um lanche para ele e voltei... meu quando ele me avistou com o saquinho de lanche de uma marca famosa pude ver em seus olhos o brilho de felicidade ... pude trocar umas palavras com ele e depois me despedi e vim para minha casa.

Creio que meu Dia não poderia ter sido melhor sai com o sentimento que iria ter um dia de "Luxo" e encontrei e pude proporcionar a felicidade na necessidade.”

O texto está exatamente como ele escreveu. Só copiei e colei com autorização dele.

Como muitos de nós ele poderia fingir que não viu e ir adiante. Aos nossos olhos, são várias as pessoas no mundo que pertencem ao mundo dos invisíveis. Mas ele resolveu parar e ver o que poderia ser feito. Com a grana curta, não sei se sobrou lanche para ele, mas isso não importa. Mesmo que não tenha lanchado naquele momento, creio que a satisfação por ter feito aquilo foi muito maior do que a satisfação que qualquer lanche poderia trazer.

Como muitos outros por ai, este é um exemplo de animal não inconveniente. Uma espécie que infelizmente está em extinção. Não devemos esperar surgir uma ONG querendo salvar esta espécie. Eu e você podemos começar este movimento fazendo nossa parte. Fazemos parte do grupo de animais racionais. Ser inconveniente ou conveniente é uma escolha nossa.

Faça sua escolha. O mundo espera sua decisão.

¹ As boas mulheres da China: vozes ocultas / Xinran; tradução do inglês Manoel Paulo Ferreira - São Paulo; Companhia das Letras, 2007.

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